Coimbra | 29 de Junho de 2015
Estou sentada numa instância tão metafísica e tão infelizmente real, entre o mundo de um café aspirado publicamente pelas caldeiras que forneciam energia à Universidade, penso eu, no século XIX, e o mundo da rua, das paixões que nunca podem resultar na minha concretização humana, das mágoas que não sei como resolver, das questões da vida que se prendem em tudo o que em mim é emocional e físico. Não sei, sinceramente, o que sinto: sou tanto um puzzle de cinco mil peças das quais noventa têm defeito de encaixe, como uma vanguarda estupefaccionista e cepticista relativamente àquilo a que chamam de mundo, felicidade e 'o bom da vida'.
Curar-me? Mas então, é doença que tenho? O que é isto?! Sou uma vanguarda, novamente, com mil olhos atentos aos mil e dois pormenores que me atravessam o pensamento a cada dois segundos que passam, ou, ao invés, uma situacionista que se acomoda às paixões do momento, tornando-as em algo tão forte quanto o próprio significado que tenho de vida? Um grande socorro para a minha situação, neste espaço tão claustrofóbico e desencorajante a que chamam mundo! Um grande aplauso aos 'navegantes da lua' que pairam nos mesmos caminhos que eu, que navegam por mares que eu tão ansiosamente desejo, e que possuem a lua como lar, onde o amor, a felicidade e a realização pessoal acontecem sempre.
Nasci com defeito em qual dos números de série do meu código de barras? Pois grande fado o meu descobri-lo! Encontro-me um artigo revendido várias e várias vezes em segunda mão, que pôde ser necessário a uns em alguns aspectos mais ou menos inúteis, e ultrapassado e inútil para outros. Em todo o caso, conformo-me com a minha essência de produto fabricado em série, com defeito de origem. Mas perante isto, onde me posso eu esconder? Talvez no bolso de algum viajante forasteiro que vá para longe e que me deixe, eventualmente, ao engano e por distracção, no recanto de uma avenida à qual só os desolados de espírito recorrem, nos subúrbios de uma cidade suja, vivida à velocidade da luz. Ah, sim! Melhor fosse, lembro-me eu agora de relance, esconder-me em plena praça pública ou eventualmente na estúpida plataforma de escadas tão cenográfica e classicamente erguidas, a preceito do cliché mais autoritário e fascista, à entrada da minha faculdade. Pois me parece a mim que talvez assim, neste meu esconderijo perfeito, me achassem no lugar de Maria Madalena e, tão vitimadamente , me encontrassem a tremer de frio do próprio medo do mundo, nestes dias de calor tórrido e de incertezas e ingratidões, e talvez aí me apedrejassem publicamente por me acharem uma exibicionista inadequada ...Coitados! E logo o meu esconderijo preferido... (riso eterno).
Amanhã esconder-me-ei. Sim! Mas alguém que me ofereça um bolinho da sorte com a frasezinha em papel, em tom de resposta às minhas necessidades. E por favor, não cuspam nele. O meu estômago já sofre com as cuspidelas que depositam nas palavras magicamente proferidas, assentes em conceitos utopicamente concebidos que ninguém consegue concretizar! Compromisso? Amizade? Amor? Ai este... trapaceiro, ainda por cima, e pretexto das maiores cuspidelas que já levei. Sorte? Cumprimento de objectivos? Orgulho dos meus demais por mim? E que mais? Pena... não me lembro pelo descrédito com que me soam.
Vou voar de volta para o interior das paredes mais maciças que esta vida me deu, contra os vários grumes do granito mais pobre, sujo e espicaçado pelo tempo. Quando a parede ruir, volto a ficar presa na minha mundividência sufocante. Sem vontade sequer de efectuar escolhas, apresso-me somente a fazer o meu último pedido: cortem-me as asas. Destruam tudo. Deixem-me no meu esconderijo. Apedrejam-me, mas não me cuspam mais! Saibam que é mais dolorosa a doença tão lenta e nefasta da deterioração do meu ser pelo vosso suco gástrico mentiroso, recesso e venenoso, do que o desmembramento por apedrejamento. Sejam ponderados comigo. Com amor!