segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Northern's sailor quotes I

Mar Báltico | S. V d.C.

Desci para a cela de baixo. As escadas rangiam. Ouvia alguém gritar lá em cima para que se içassem as velas.Do óculo adoçado à margem da reserva dos mantimentos para a tripulação, conseguia desfrizar a linha do horizonte que o nevoeiro arrastava consigo. A ave liberta não regressou. Talvez houvesse terra já perto. 
Aghhhh... Aquela maneira brusca que o Ahern tem de içar a vela! Porquê tanta ânsia em navegar numa tripulação para a qual só o orgulho se preparou? Que Freya te adoce um pouco esse teu coração de pedra, meu irmão.
As ondas rasgam-se contra o cume das vergas de madeira de carvalho que que Eadoin construíra como tributo aos Deuses.
E mais um trovão rasga também violentamente a cúpula celeste que o olho corajoso de Odin projectara.
Talvez seja melhor regressar aos remos. Thor parece um tanto enfurecido, e o som do seu machado na bigorna estremece-me por dentro.

Breves Memórias da Intuição I

Coimbra | 11 de Fevereiro de 2015

E por vezes, dás lugar a um pleonasmo de ti próprio. Dissipam-se das mãos as células da tua fé. Escapa-te de cada ponta do teu cabelo o vento do norte que até então sempre te ditara o rumo a seguir. Não entras nem sais de lugar algum. Ficas onde estás porque não dás crédito à porta que se antevê no teu caminho. Recordas-me a ausência absoluta de memória e fazes questão de me relembrar uma amnésia cujo início ninguém ousa sussurrar. E por vezes, dou eu lugar a uma anacronismo dos tempos aos quais sempre fui alheia.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A título da pena sem tinta

Coimbra | 17 de Julho de 2015

Dia após dia. Caso após caso. Frase após frase. Luz após luz. Anjo após anjo. Escuro após escuro. Erro após erro. Ânimo após ânimo. Linha após linha. Saída após entrada. Retrocesso após avanço. Regresso após ida. E sob esta máquina disfuncional se pautam assim as minhas aventuras. Vou longe. O mais longe que, efectivamente, consigo. O quão longe acho que nunca concebera em longitude. Faço os meus trabalhos, mas não os meus deveres. Minto... meto-me em trabalhos que condicionam os meus deveres, São escolhas. São erros. São formas dissimuladas de sentir as coisas. São instâncias que não descodifico, e que só entendo sensorialmente. Sinto tanto que não sei nada, que tanto sinto que nada possuo e mais ainda sinto que sou o tudo do nada. Sou tanto e tão imensa nas minhas emoções e pensamentos que nada faço para que o que quero aconteça. Da melhor ou da pior forma, sobrevivo em estado vegetativo. Vou para onde me chamam, que quase nunca corresponde ao destino ao qual anseio chegar. Vou, talvez sempre, para onde penso que quero, porque me iludo com uma voz ausente que me chama. Cheiro a suor. Estou cansada. Faço e desfaço continuamente as malas. Não sirvo propósitos de ninguém. Ninguém cumpre compromissos comigo. Sou o resultado do combinado eternamente deixado ao sabor da expectativa. Um completo eclipse invertido, que me deixa apenas atenta, do lado errado, a um fenómeno que nunca chega aos meus olhos, suspenso na infinitude da escuridão láctea. Todo o belo me passa completamente ao lado, e mesmo que o anseasse, não lhe tenho qualquer acesso. Sereia azul. Mar gay. Esfera quadrilátero. Átomo de Chernobyl.
Vivo ontem, estive hoje, serei nunca e fui amanhã. Tão incongruente quanto isto. Ironia vital ao invés da vida irónica.  Sou assim tão somente a metamorfose de um solstício que, na passagem do tempo, me transforma de metáfora para pleonasmo de mim mesma. Antítese das personificações que me assumem e possuem, sentindo-me tentada a achar ter inspirado a Antítese da Calma de António Dacosta. Ah sim, como é agridoce este meu surrealismo e este meu pintar quadros de mim mesma. Terá sido uma das últimas tentativas. Seria melhor ter enverdado por uma total vertente estilística metafísica, apoiando-me nos dons maravilhosos de toda a concepção da não vivência de Schopenhauer. Mas enfim. Comparação também com a maior hipérbole já proferida. Ultra-romantismo garretiano na exposição de Munch. A maior surrealista, mergulhada no Gato Preto de Edgar Allan Poe. Considera-me a pulseira que nunca dispensas das tuas costas e o anel preferido da tua testa. Posso ser eu um 'eu mesma' sem estas inspirações, talvez já em várias opiniões, maçónicas? Ou tenho de me forçar continuadamente a esta falsa religião de gostar de mim mesma? Pois não existe pior maçonaria que esta, do auto-engano sucessivo. Preciso, com a maior das urgências, de um qualquer estagiário que esteja disposto (e não consciente, de todo) a gerir as questões todas da minha existência, se é que as posso conceber. Pintem-nas!

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Crónica do instante não falado ou carta aos procuradores do meu esconderijo

Coimbra | 29 de Junho de 2015

Estou sentada numa instância tão metafísica e tão infelizmente real, entre o mundo de um café aspirado publicamente pelas caldeiras que forneciam energia à Universidade, penso eu, no século XIX, e o mundo da rua, das paixões que nunca podem resultar na minha concretização humana, das mágoas que não sei como resolver, das questões da vida que se prendem em tudo o que em mim é emocional e físico. Não sei, sinceramente, o que sinto: sou tanto um puzzle de cinco mil peças das quais noventa têm defeito de encaixe, como uma vanguarda estupefaccionista e cepticista relativamente àquilo a que chamam de mundo, felicidade e 'o bom da vida'.
Curar-me? Mas então,  é doença que tenho? O que é isto?! Sou uma vanguarda, novamente, com mil olhos atentos aos mil e dois pormenores que me atravessam o pensamento a cada dois segundos que passam, ou, ao invés, uma situacionista que se acomoda às paixões do momento, tornando-as em algo tão forte quanto o próprio significado que tenho de vida? Um grande socorro para a minha situação, neste espaço tão claustrofóbico e desencorajante a que chamam mundo! Um grande aplauso aos 'navegantes da lua' que pairam nos mesmos caminhos que eu, que navegam por mares que eu tão ansiosamente desejo, e que possuem a lua como lar, onde o amor, a felicidade e a realização pessoal acontecem sempre.
Nasci com defeito em qual dos números de série do meu código de barras? Pois grande fado o meu descobri-lo! Encontro-me um artigo revendido várias e várias vezes em segunda mão, que pôde ser necessário a uns em alguns aspectos mais ou menos inúteis, e ultrapassado e inútil para outros. Em todo o caso, conformo-me com a minha essência de produto fabricado em série, com defeito de origem. Mas perante isto, onde me posso eu esconder? Talvez no bolso de algum viajante forasteiro que vá para longe e que me deixe, eventualmente, ao engano e por distracção, no recanto de uma avenida à qual só os desolados de espírito recorrem, nos subúrbios de uma cidade suja, vivida à velocidade da luz. Ah, sim! Melhor fosse, lembro-me eu agora de relance, esconder-me em plena praça pública ou eventualmente na estúpida plataforma de escadas tão cenográfica e classicamente erguidas, a preceito do cliché mais autoritário e fascista, à entrada da minha faculdade. Pois me parece a mim que talvez assim, neste meu esconderijo perfeito, me achassem no lugar de Maria Madalena e, tão vitimadamente , me encontrassem a tremer de frio do próprio medo do mundo, nestes dias de calor tórrido e de incertezas e ingratidões, e talvez aí me apedrejassem publicamente por me acharem uma exibicionista inadequada ...Coitados! E logo o meu esconderijo preferido... (riso eterno).
Amanhã esconder-me-ei. Sim! Mas alguém que me ofereça um bolinho da sorte com a frasezinha em papel, em tom de resposta às minhas necessidades. E por favor, não cuspam nele. O meu estômago já sofre com as cuspidelas que depositam nas palavras magicamente proferidas, assentes em conceitos utopicamente concebidos que ninguém consegue concretizar! Compromisso? Amizade? Amor? Ai este... trapaceiro, ainda por cima, e pretexto das maiores cuspidelas que já levei. Sorte? Cumprimento de objectivos? Orgulho dos meus demais por mim? E que mais? Pena... não me lembro pelo descrédito com que me soam.
Vou voar de volta para o interior das paredes mais maciças que esta vida me deu, contra os vários grumes do granito mais pobre, sujo e espicaçado pelo tempo. Quando a parede ruir, volto a ficar presa na minha mundividência sufocante. Sem vontade sequer de efectuar escolhas, apresso-me somente a fazer o meu último pedido: cortem-me as asas. Destruam tudo. Deixem-me no meu esconderijo. Apedrejam-me, mas não me cuspam mais! Saibam que é mais dolorosa a doença tão lenta e nefasta da deterioração do meu ser pelo vosso suco gástrico mentiroso, recesso e venenoso, do que o desmembramento por apedrejamento. Sejam ponderados comigo. Com amor!

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Homens, nossos!

Sentimos os focos do ritmo rotineiro à nossa volta; tudo se faz transparecer em gritos de fluorescência da própria natureza das coisas.
Imaginemos o sentimentalismo de um Homem restringido no acto de pressionar um botão e apagar a luz que esclarece as incertezas do próprio escuro... Nada disto me parece fazer sentido. Nem o sentimentalismo, nem a luz, nem aquilo a que chamo “fluorescência da própria natureza das coisas”.
Esta noite divaguei em estantes, procurei curiosamente em antigos e massudos livros os destinos assinalados pelo Homem: vi grandes reis, célebres, assassinos, místicos, vítimas de perseguição, vi famílias distribuídas nas suas gerações... na maior parte, tudo protagonistas do mais precioso que possuímos de identidade histórica.
Quis manifestar o susto: Como é que aqueles milhares de homens e mulheres se concentravam numa sala estrondosamente só? Seria possível nenhum deles possuir vontade de gritar, ou pelo menos de quebrar aquele silêncio corroborado em decibéis negativos de som? Vontade de quebrar rotina! Pressa de fugir! Não sei... qualquer coisa! Eu não desejava aquilo para ninguém!
Afinal, os sentimentalismos, a luz, a rotina e a “fluorescência da própria natureza das coisas” não foram os pais de Adão e Eva, os pais de Aristóteles e dos grandes sábios, os pais dos fracassados e dos pobres de espírito, dos nobres, felizes, dos autores da História clássica, dos selvagens e dos altruístas? E não haviam sido também os meus pais? Não quereriam eles que seus filhos mergulhassem nesta vaga pobre de solidão... quereriam pois desocupar um mundo só e habitar outro, algures, com ritmos assentes, com harmonia e certezas definidas!
Quero conhecer este património, entrar nas suas histórias, ir ao seu encontro e trazê-los! Trazê-los para outro mundo, algures... Levá-los comigo...para a minha rotina, para os meus sentimentalismos e para tudo o que constitui esta minha ideologia! Pois senão, morreriam naquela sala estrondosamente só, sem o seu reconhecimento merecido. Iria eu aglomerar-me àquela solidão denunciadora? Era pois preciso trazê-los de volta!
Então senti-me parte deles. Senti-me sua irmã! Irmã presa por cordões históricos, iluministas, renascentistas, medievais, com vitórias e fracassos dolorosos... Senti o que eles queriam voltar a sentir.
Desta vez apaguei mesmo a luz que me sustentava algumas razões. Deixei-me ao sabor daquele espaço e daquele tempo. O agora deixou de existir. O tempo condensou e os espaços passaram todos a fazer parte daquela mesma sala.
-“Sois livres!” disse eu. Não ouve resposta. Repeti “Sois livres! Vão!”. Novamente, nada obtive como resposta.
Acendi novamente a luz. Senti-me de novo só, e curiosamente, agora com a luz acesa, sentia-me às escuras. Não deveria, pois, ter despertado neles a vontade intrínseca de auto-manipular as suas vidas para a realidade que lhes queria dar. Mas , que realidade, afinal? Possivelmente, a realidade não passasse do que já conhecemos. O ambiente daquela sala parecia querer dividir o meu real do deles. O erro foi meu.
A sala estava preenchida de estantes, sim. Estantes com livros imensos e variados, que despertavam curiosidade ao primeiro olhar que os assaltasse. No entanto, naquela sala, encontrava-se também uma concavidade alinhada com a parede, que suscitava na minha imaginação uma lareira! Era estranho... Pensei eu: “O frio é a prisão de qualquer corpo; é o que faz depender muita gente de uma só sala que lhes assegure calor e que por fim, tenha sido engano”. No entanto, aquela sala era fria, e assim continuaria, até toda a gente ali concentrada se sentir fracassada nesse campo. Pensei, então de súbito numa concepção que me inquietava: “O calor, porém, poderia libertar aquela gente do clima sóbrio, parado e gelado em que se encontravam”.
Nada mais me ocorrera, que acender o que me fez parecer uma lareira. No entanto, não encontrava meios para tal... Lembrei-me então da luz presente no candelabro ostentado, que suspendia no tecto. Por vezes sentimos a necessidade de recorrer a tudo para nos realizarmos...nem que seja a velhas teorias que por fim possam mudar as coisas. Apressei-me a colocar um pisa-papéis de cristal que se encontrava numa das estantes ao encontro dos fluxos de luz, virando-o para a direcção da lareira. Irracionalmente, todos aqueles livros que preservavam a história do seu protagonista, lancei-os à lareira.
Os fluxos de luz incidiram paralelamente nos livros, aparecendo a primeira chama... Estavam a arder! De súbito, algo intenso, de natureza invisível, que deixava reproduzir suspiros e sopros de euforia comungada por uma espécie de pressa de libertação, largava-se de cada folha, sobrevoando por toda a sala, e indo um por um, saindo pela lacuna que se encontrava entre a porta e o chão. À fuga, juntou-se numa perspectiva solene de ânsia, a pressa de alcançar o indeterminável.
Toda a sala ficou vazia. Apenas eu, ainda a contemplar aquele acontecimento.
Digam-me homens, quão melhor que uma vida conhecida, é a vossa liberdade? Fui assim portadora desta iniciativa. Não seria motivo de orgulho, mas de realização pessoal.
A vida seguiu-se. A rotina, a luz, o sentimentalismo e a “fluorescência da própria natureza das coisas” mantiveram-se. O que mudou foi o sentido que nos leva a ficar parados no tempo e no espaço ou a apressar-mo-nos para a outra realidade, algures. Alterei o frio que todo o meu passado sentia naquela solidão ambígua. Trouxe-lhes o calor e a concepção de uma realidade livre. Acrescentei à sua história a minha: ir ao encontro da pressa que nos transporta até à libertação! Foi este o meu feito.