segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Homens, nossos!

Sentimos os focos do ritmo rotineiro à nossa volta; tudo se faz transparecer em gritos de fluorescência da própria natureza das coisas.
Imaginemos o sentimentalismo de um Homem restringido no acto de pressionar um botão e apagar a luz que esclarece as incertezas do próprio escuro... Nada disto me parece fazer sentido. Nem o sentimentalismo, nem a luz, nem aquilo a que chamo “fluorescência da própria natureza das coisas”.
Esta noite divaguei em estantes, procurei curiosamente em antigos e massudos livros os destinos assinalados pelo Homem: vi grandes reis, célebres, assassinos, místicos, vítimas de perseguição, vi famílias distribuídas nas suas gerações... na maior parte, tudo protagonistas do mais precioso que possuímos de identidade histórica.
Quis manifestar o susto: Como é que aqueles milhares de homens e mulheres se concentravam numa sala estrondosamente só? Seria possível nenhum deles possuir vontade de gritar, ou pelo menos de quebrar aquele silêncio corroborado em decibéis negativos de som? Vontade de quebrar rotina! Pressa de fugir! Não sei... qualquer coisa! Eu não desejava aquilo para ninguém!
Afinal, os sentimentalismos, a luz, a rotina e a “fluorescência da própria natureza das coisas” não foram os pais de Adão e Eva, os pais de Aristóteles e dos grandes sábios, os pais dos fracassados e dos pobres de espírito, dos nobres, felizes, dos autores da História clássica, dos selvagens e dos altruístas? E não haviam sido também os meus pais? Não quereriam eles que seus filhos mergulhassem nesta vaga pobre de solidão... quereriam pois desocupar um mundo só e habitar outro, algures, com ritmos assentes, com harmonia e certezas definidas!
Quero conhecer este património, entrar nas suas histórias, ir ao seu encontro e trazê-los! Trazê-los para outro mundo, algures... Levá-los comigo...para a minha rotina, para os meus sentimentalismos e para tudo o que constitui esta minha ideologia! Pois senão, morreriam naquela sala estrondosamente só, sem o seu reconhecimento merecido. Iria eu aglomerar-me àquela solidão denunciadora? Era pois preciso trazê-los de volta!
Então senti-me parte deles. Senti-me sua irmã! Irmã presa por cordões históricos, iluministas, renascentistas, medievais, com vitórias e fracassos dolorosos... Senti o que eles queriam voltar a sentir.
Desta vez apaguei mesmo a luz que me sustentava algumas razões. Deixei-me ao sabor daquele espaço e daquele tempo. O agora deixou de existir. O tempo condensou e os espaços passaram todos a fazer parte daquela mesma sala.
-“Sois livres!” disse eu. Não ouve resposta. Repeti “Sois livres! Vão!”. Novamente, nada obtive como resposta.
Acendi novamente a luz. Senti-me de novo só, e curiosamente, agora com a luz acesa, sentia-me às escuras. Não deveria, pois, ter despertado neles a vontade intrínseca de auto-manipular as suas vidas para a realidade que lhes queria dar. Mas , que realidade, afinal? Possivelmente, a realidade não passasse do que já conhecemos. O ambiente daquela sala parecia querer dividir o meu real do deles. O erro foi meu.
A sala estava preenchida de estantes, sim. Estantes com livros imensos e variados, que despertavam curiosidade ao primeiro olhar que os assaltasse. No entanto, naquela sala, encontrava-se também uma concavidade alinhada com a parede, que suscitava na minha imaginação uma lareira! Era estranho... Pensei eu: “O frio é a prisão de qualquer corpo; é o que faz depender muita gente de uma só sala que lhes assegure calor e que por fim, tenha sido engano”. No entanto, aquela sala era fria, e assim continuaria, até toda a gente ali concentrada se sentir fracassada nesse campo. Pensei, então de súbito numa concepção que me inquietava: “O calor, porém, poderia libertar aquela gente do clima sóbrio, parado e gelado em que se encontravam”.
Nada mais me ocorrera, que acender o que me fez parecer uma lareira. No entanto, não encontrava meios para tal... Lembrei-me então da luz presente no candelabro ostentado, que suspendia no tecto. Por vezes sentimos a necessidade de recorrer a tudo para nos realizarmos...nem que seja a velhas teorias que por fim possam mudar as coisas. Apressei-me a colocar um pisa-papéis de cristal que se encontrava numa das estantes ao encontro dos fluxos de luz, virando-o para a direcção da lareira. Irracionalmente, todos aqueles livros que preservavam a história do seu protagonista, lancei-os à lareira.
Os fluxos de luz incidiram paralelamente nos livros, aparecendo a primeira chama... Estavam a arder! De súbito, algo intenso, de natureza invisível, que deixava reproduzir suspiros e sopros de euforia comungada por uma espécie de pressa de libertação, largava-se de cada folha, sobrevoando por toda a sala, e indo um por um, saindo pela lacuna que se encontrava entre a porta e o chão. À fuga, juntou-se numa perspectiva solene de ânsia, a pressa de alcançar o indeterminável.
Toda a sala ficou vazia. Apenas eu, ainda a contemplar aquele acontecimento.
Digam-me homens, quão melhor que uma vida conhecida, é a vossa liberdade? Fui assim portadora desta iniciativa. Não seria motivo de orgulho, mas de realização pessoal.
A vida seguiu-se. A rotina, a luz, o sentimentalismo e a “fluorescência da própria natureza das coisas” mantiveram-se. O que mudou foi o sentido que nos leva a ficar parados no tempo e no espaço ou a apressar-mo-nos para a outra realidade, algures. Alterei o frio que todo o meu passado sentia naquela solidão ambígua. Trouxe-lhes o calor e a concepção de uma realidade livre. Acrescentei à sua história a minha: ir ao encontro da pressa que nos transporta até à libertação! Foi este o meu feito.


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