Coimbra | 17 de Julho de 2015
Dia após dia. Caso após caso. Frase após frase. Luz após luz. Anjo após anjo. Escuro após escuro. Erro após erro. Ânimo após ânimo. Linha após linha. Saída após entrada. Retrocesso após avanço. Regresso após ida. E sob esta máquina disfuncional se pautam assim as minhas aventuras. Vou longe. O mais longe que, efectivamente, consigo. O quão longe acho que nunca concebera em longitude. Faço os meus trabalhos, mas não os meus deveres. Minto... meto-me em trabalhos que condicionam os meus deveres, São escolhas. São erros. São formas dissimuladas de sentir as coisas. São instâncias que não descodifico, e que só entendo sensorialmente. Sinto tanto que não sei nada, que tanto sinto que nada possuo e mais ainda sinto que sou o tudo do nada. Sou tanto e tão imensa nas minhas emoções e pensamentos que nada faço para que o que quero aconteça. Da melhor ou da pior forma, sobrevivo em estado vegetativo. Vou para onde me chamam, que quase nunca corresponde ao destino ao qual anseio chegar. Vou, talvez sempre, para onde penso que quero, porque me iludo com uma voz ausente que me chama. Cheiro a suor. Estou cansada. Faço e desfaço continuamente as malas. Não sirvo propósitos de ninguém. Ninguém cumpre compromissos comigo. Sou o resultado do combinado eternamente deixado ao sabor da expectativa. Um completo eclipse invertido, que me deixa apenas atenta, do lado errado, a um fenómeno que nunca chega aos meus olhos, suspenso na infinitude da escuridão láctea. Todo o belo me passa completamente ao lado, e mesmo que o anseasse, não lhe tenho qualquer acesso. Sereia azul. Mar gay. Esfera quadrilátero. Átomo de Chernobyl.
Vivo ontem, estive hoje, serei nunca e fui amanhã. Tão incongruente quanto isto. Ironia vital ao invés da vida irónica. Sou assim tão somente a metamorfose de um solstício que, na passagem do tempo, me transforma de metáfora para pleonasmo de mim mesma. Antítese das personificações que me assumem e possuem, sentindo-me tentada a achar ter inspirado a Antítese da Calma de António Dacosta. Ah sim, como é agridoce este meu surrealismo e este meu pintar quadros de mim mesma. Terá sido uma das últimas tentativas. Seria melhor ter enverdado por uma total vertente estilística metafísica, apoiando-me nos dons maravilhosos de toda a concepção da não vivência de Schopenhauer. Mas enfim. Comparação também com a maior hipérbole já proferida. Ultra-romantismo garretiano na exposição de Munch. A maior surrealista, mergulhada no Gato Preto de Edgar Allan Poe. Considera-me a pulseira que nunca dispensas das tuas costas e o anel preferido da tua testa. Posso ser eu um 'eu mesma' sem estas inspirações, talvez já em várias opiniões, maçónicas? Ou tenho de me forçar continuadamente a esta falsa religião de gostar de mim mesma? Pois não existe pior maçonaria que esta, do auto-engano sucessivo. Preciso, com a maior das urgências, de um qualquer estagiário que esteja disposto (e não consciente, de todo) a gerir as questões todas da minha existência, se é que as posso conceber. Pintem-nas!